A vida de uma familia operária

Agora, a vela alumiava o quarto, quadrado, com duas janelas, atravancado com três camas. Havia ali um armário, uma mesa, duas cadeiras de velha nogueira, cujo tom fumoso manchava duramente as paredes, pintadas de amarelo-claro
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A vida de uma família de mineiros do carvão em meados do século XIX:

«Agora, a vela alumiava o quarto, quadrado, com duas janelas, atravancado com três camas. Havia ali um armário, uma mesa, duas cadeiras de velha nogueira, cujo tom fumoso manchava duramente as paredes, pintadas de amarelo-claro. E mais nada, a não ser trapos suspensos de pregos, e uma bilha no chão, ao pé de um alguidar encarnado que servia de bacia. Na cama da esquerda, o Zacarias, o mais velho, rapaz de vinte e um anos, achava-se deitado com seu irmão Jenlin, que estava a fazer onze; na da direita, dois petizes, o Henrique e a Leonor, esta de seis anos e aquele de quatro, dormiam abraçados um ao outro; a Catarina partilhava o terceiro leito com sua irmã Alzira, tão enfezada para os seus nove anos, que nem ela a teria sentido junto de si, se não fosse a corcunda da pobre enferma, que lhe entrava pelas costelas dentro. A porta de vidraça estava aberta, via-se o corredor do patamar, a espécie de cacifo em que o pai e a mão ocupavam um quarto leito, onde tinham encostado o berço da mais nova, Estela, apenas de três meses (....) Encafuada na coberta, (a mãe) mostrava apenas o rosto comprido, de largos traços e beleza pesada, já disforme aos trinta e nove anos, pela má vida de miséria e pelos sete filhos que tinha tido. Com os olhos no tecto, pôs-se a falar lentamente, enquanto o seu homem se vestia. A pequena berrava sempre e nem um nem outro lhe davam atenção:

- Já te disse que estou sem dinheiro nenhum, e é segunda-feira; seis dias ainda a esperar pela quinzena( ... ) Não há meio de aguentar até lá. Vocês todos trazem-me nove francos por dia; como querem que os sustente? Olha que somos dez bocas.

- Ora, nove francos! - grunhiu o Maheu. - Eu e o Zacarias, a três, são seis ... A Catarina e o pai, a dois. são quatro; quatro e seis, dez (... )
E o Jeanlin, um, são onze.

- Sim, onze; mas há os domingos e os dias de folga ... Nunca passa de nove, que to digo eu! ... Jesus? Que hei-de eu fazer? Dois dias, é um nunca acabar. Devemos sessenta francos ao Maigrat, que ainda ontem me pôs fora, com as mãos a abanar. Assim mesmo, eu lá volto hoje. Mas se ele continua a recusar ...

Entretanto, diante do armário aberto, a Catarina reflectia. Ainda restava um pedaço de pão, suficiente queijo fresco, mas apenas uma lambedura de manteiga; e tratava-se de fazer fatias para os quatro. Decidiu-se, enfim; cortou as fatias o mais grossas possível. cobriu uma de queijo, e esfregou a outra com manteiga, e colou-as depois. Era a bucha, a dupla fatia que levavam pela manhã para a vala. Num instante,
apareceram em fileiras as quatro buchas sobre a banca, repartidas com severa justiça, desde a grande do pai até à pequena do Jeanlin ...
Nisto, um esguicho de vapor fez estremecer a Catarina. Fechou a porta, foi a correr: a água fervia e entornava-se, apagando o lume. Já não restava café; teve de se limitar a passar uma pouca de água pelo pé da véspera, que depois adoçou na cafeteira, com açúcar mascavado. Vinham justamente a descer o pai e os irmãos ... A Catarina, depois de beber, acabava de despejar a cafeteira nos cantis de lata ... Cada qual sacou os seus tamancos de sob o aparador, deitou o cordão do cantil ao ombro e meteu a bucha nas costas, entre a camisa e a jaqueta. E saíram ... Vestidos de lona delgada, tiritavam de frio, sem por isso caminharem mais depressa, debandados ao longo do caminho, num tropeçar de rebanho ...
Como os Maheu chegassem, ouviram-se risadas ao lume ... Entretanto, a alegria abateu: a do Mouque estava contando ao Maheu que a Fleurance não podia vir ... E o Maheu enraivecia-se: ... Aí perdia ele uma das suas gradadoras, sem a poder substituir de pronto! - O Maheu trabalhava de empreitada, eram quatro cortadores (de carvão) de parceria no seu corte: ele, o Zacarias, o Levaque e o Chaval. Só com a Catarina para gradar, iam ver-se em apuros. De repente, teve uma ideia: - Espera! E aquele homem que pedia trabalho? ..
O Estêvão chegou, combinou-se tudo em quatro palavras: trinta soldos por dia, um trabalho fatigante, mas que ele depressa aprenderia.»
Zola - Emílio,, «Germinal»